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“Doce ou bala?” – O Barco das Drogas!

Mais de 1.700 pessoas a bordo. Som alto o tempo todo, e muita bebida. Em um dos corredores, o passageiro faz uma pergunta, que de inocente não tem nada: “Doce ou bala?”. Na verdade é um código: bala é ecstasy, doce é LSD – duas drogas produzidas em laboratório e que podem provocar alucinações e causar sérios danos à saúde.

Muitos passageiros não se preocupam com perigo. “Ah, tomei um doce quase inteiro, fumei uma maconha”, diz a passageira. Os flagrantes foram gravados por dois produtores do Fantástico, que embarcaram no transatlântico, na semana passada.

Voltada para o público jovem, a viagem era de quatro dias, entre Santos e Búzios. Preço: cerca de R$ 1.500 por pessoa. Logo no embarque, o aviso: “Não é permitida a entrada de bebidas alcoólicas no navio”.

No bar do navio, uma garrafa de vodca ou de whisky custa cerca de R$ 250, uma lata de cerveja, R$ 12 e um energético, R$ 11. Mas o preço alto não impede os excessos, como o do grupo que despeja várias doses de energético em um balde, e depois vodca. Um rapaz mal consegue ficar em pé. Ele resolve entrar na piscina e, ao sair, escorrega e cai na água, mas sem largar o copo.

Os seguranças tentam controlar os mais exaltados, mas não conseguem enxergar tudo o que acontece. Um casal finge tomar cerveja, mas na verdade o que a lata contém é lança-perfume caseiro, também chamado de loló. Em dez segundos, a moça inala três vezes a mistura à base de clorofórmio. Em outro momento, o ecstasy é distribuído à beira de piscina, perto de dezenas de pessoas. O rapaz que pegou o comprimido procura uma jovem, ele pede água e engole o ecstasy.

Punição

Quando flagrado, o consumo de drogas dentro do navio pode ser punido: “A pessoa é conduzida à cabine e pode ser presa, o comandante tem autoridade para isso. As companhias têm em média dez agente de segurança para cada mil passageiros”, diz Eduardo Nascimento, presidente da Associação Brasileira de Representantes de Empresas Marítimas (Abremar).

No segundo dia de viagem, o navio para em Búzios. Para alguns, uma oportunidade de conseguir LSD e ecstasy. Um morador de Búzios disse que viu traficantes oferecendo drogas para jovens do navio: “Estavam vendendo ali. Estava uma briga danada, um querendo vender na frente do outro”.

Na volta para o transatlântico, os seguranças só procuram bebidas alcoólicas. “Você está trazendo uma caixa de cerveja à bordo? Não, né?”, diz um.

Em nota, a empresa que representa o navio em que a equipe do Fantástico viajou alega que segue todas as normas nacionais e internacionais. Diz ainda que, depois de assistir a reportagem, tomaria as providências cabíveis.

A maioria dessas viagens começa no Porto de Santos, onde é feito um controle mais rígido contra a entrada de drogas. Todas as bagagens são fiscalizadas antes do embarque, as malas passam por esse raio-x e essa revista. Os passageiros passam por um detector de metais. Mesmo assim, a própria polícia admite: é impossível impedir a entrada de drogas e bebidas no navio.

“Nosso trabalho aqui está longe de alcançar cem por cento. Alguma droga, algum ecstasy, é embarcado, nós temos certeza”, diz o delegado Luis Carlos de Oliveira, chefe da delegacia da Polícia Marítima de Santos.

Uma situação perigosa

Apesar de centenas de jovens estarem expostos a risco, o aviso no centro médico do navio diz: “O atendimento é apenas das 8h às 10h, e das 17h30 às 19h”. E é preciso pagar. “Isso, tem que pagar”, diz um atendente, “vocês têm um seguro e são reembolsados depois, mas têm que pagar a bordo”. O valor da consulta é de cerca de R$ 260.

Nascimento diz que até acha caro: “Mas é o sistema internacional. Eu acho justa a cobrança porque é um serviço a mais que não é prestado a todo mundo. Só excepcionalmente a alguns hóspedes”.

Quem passa mal fora do horário de atendimento, paga mais. “É só ligar para a recepção, ficamos de plantão 24h, e a gente vêm até aqui. E é U$ 30 a mais”.

O atendimento médico restrito não é um risco só para quem está consumindo drogas e bebidas em um navio. No último mês, quatro passageiros morreram e centenas ficaram doentes em cruzeiros pelo litoral brasileiro. Em alguns casos, existem alegações de falhas no atendimento médico.

Imperícia

“Foi imperícia total, imperícia médica”. Tiago Mendes de Oliveira lembra do desespero quanto, dez dias atrás, o irmão Diego passou mal em um cruzeiro em alto mar. O médico foi quatro vezes à cabine deles. “Falou que era normal, que as manchas eram normais, que estava saindo a febre. Voltou para o ambulatório dizendo que daqui a pouco ele estaria bom, tranquilizando a gente”.

Quando finalmente Diego foi levado ao ambulatório, já era tarde. “Aí o doutor falou que ele tava com uma infecção generalizada e que ele corria risco de vida”. Diego morreu vítima de uma meningite grave, contagiosa, e capaz de matar em poucas horas. O médico que o atendeu, um colombiano, não conseguiu diagnosticar a doença.

“Uma enfermeira que estava ao lado dele falava: o médico quer saber qual foi a causa. O porque aconteceu isso com seu irmão. Ela perguntava para mim, em português”, conta Tiago” Tem dois mil brasileiros, por que põe um médico colombiano? Por que não um brasileiro que fala o português claro?”, questiona Valdir de Oliveira, pai de Deigo.

A empresa que fretou o navio onde Diego morreu informou, em nota, que o médico colombiano tem condições de se comunicar em português. Diz ainda que confia no testemunho do médico de que ele seguiu os procedimentos adequados.

Virose

Um casal de Vitória também viu o passeio no mar ser interrompido por um problema de saúde. Eles estavam no cruzeiro onde 394 pessoas ficaram doentes ao contrair uma virose, no começo deste mês. “Imagina 400 pessoas em duas salinhas ali, com dois médicos e duas enfermeiras para atender esse batalhão de gente. Você viaja com a família sem a certeza de uma segurança. Complicado, né?” pergunta o engenheiro civil Édis Alves Carneiro.

O atendimento foi gratuito e, segundo o representante do navio, correto. “Quando detectamos o surto, aplicamos o máximo nível. Em 48 horas, o número de casos caiu dramaticamente”.

Especialistas dizem que, nos lugares fechados do navio, algumas doenças se propagam mais facilmente. Mas não há razão para pânico, mesmo em um caso grave como a meningite de Diego. “Para as pessoas que estão próximas, que dormiram no mesmo ambiente, que ficaram mais de quatro, cinco horas juntos conversando, a chance é grande. As outras pessoas praticamente não têm risco”, explica Juvencio José Duailibe Furtado, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Segundo a associação que representa o setor, meio milhão de pessoas devem viajar em cruzeiros pelo Brasil neste verão. “Eles visam muito o lucro. Navio nunca mais, com certeza”, desabafa Carneiro. “É aquele negócio, você vai, mas torce para não passar mal”, complementa Tiago.

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